THE ART OF LIVING...

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Neste número

Editorial

Olhares
Aman Sveti Stefan’s Villa Milocer, Montenegro Le Manoir Richelieu, Canada


Entrevista:
D. Carlos Falcó y Fernández
de Córdova - Marquês de Griñon


Destinos:
Rome Cavalieri


Destinos:
Istambul - Ciragan Palace

Destinos:
Algarve - Tivoli Victoria


Destinos:
Celebrity Equinox


Destinos:
Estocolmo


Safaris: Londolozi

Safaris: Chobe Chilwero

Safaris: Stanley's Camp

Island Escape Zanzibar - Kilindi

Quintessência:
Shangri-La Abu Dhabi


Projecto:
Quinta da Praia Resort
Hilton Alvor


Wellness: Six Senses Destination Spa Phuket

Observatório:
Pearl Academy of Fashion


Trends: Bang&Olufsen

Gourmet:
Matsuhisa Mykonos


Livros

Barco:
Sunseeker Predator 108


Auto: Audi R8

 

Entrevista
D. Carlos Falcó y Fernández de Córdova
Marquês de Griñon

Considerado um dos mais prestigiados produtores de vinho espanhóis, D. Carlos Falcó y Fernandéz de Córdova, Marquês de Griñon, foi um dos pioneiros da modernização deste sector no país vizinho. Formado em Engenharia Agrónoma pela Universidade de Lovaina, na Bélgica, frequentou posteriormente a Universidade californiana de Davis, onde aperfeiçoou os seus conhecimentos técnicos na área da investigação agrária. Apaixonado pela enologia, tem dedicado as últimas décadas ao engrandecimento e fortalecimento daquele que podemos apelidar de projecto da sua vida, o Domínio de Valdepusa. Hoje, lidera os prestigiados “Viños de Pago” espanhóis.


Finca Valdepusa. Sabemos que a propriedade está na sua família desde 1270…
Desde o século XIII, sim. De facto está junto ao Castelo de Malpica, onde vivia o meu avô e onde, actualmente, vive o meu único primo, Gonzalo Fernández de Córdoba, duque de Arión. O castelo antigo é um castelo templário, estava unido, é da minha filha. Foi- -lhe cedido pela minha irmã, mas esse está em ruínas, temos apenas um olival ali perto.
Mas, a casa onde eu vivo em Malpica tem uma parte medieval, no entanto a ermida, a capela e a parte mais importante da casa datam do século XVIII. Temos documentos no arquivo do castelo que remontam aos finais do século XIII. E um privilégio escrito por Pedro I, o Cruel, datado de 1350 no qual ratifica a propriedade de La Finca.
É daí que vem o seu interesse pelo mundo do vinho e da enologia?
Sim. Em jovem tinha por costume ir até ao castelo ver a vindima e depois a recolha da azeitona, que era o mais importante. Nessa época era mais importante o azeite do que o vinho. A adega era muito bonita, do género tradicional da Mancha, e encontrava-se nos subterrâneos do castelo. Havia o que podemos equiparar a um lagar de azeite, mais moderno, tendo sido renovado no início do século passado e o meu avô estava muito orgulhoso da sua produção de azeite. Então, um dia disse-lhe “porque não engarrafas estes produtos?”, ao que ele respondeu “não, sou agricultor e esse é outro negócio, isso é para comerciantes e nós somos desde há séculos apenas agricultores”.
Ele queria permanecer como toda a gente em La Mancha, então eu garanti- lhe que me ocupava de proceder ao engarrafamento com uma marca, e aí o meu avô já aceitou afirmando “muito bem, parece-me muito bem”. Nessa altura pedi-lhe ajuda para poder estudar para ser Engenheiro Agrónomo, uma vez que os meus pais pretendiam que eu fosse militar. O meu irmão já estava na Marinha e eu devia seguir para Cavalaria. Los Fernández de Córdoba são uma família de militares, pois descendemos do Gran Capitán que reconquistou Granada para os Reis Católicos. Na verdade, a casa que ofereceram ao Gran Capitán quando entrou em Granada foi reconstruída pelo meu pai e hoje acolhe o Arquivo Histórico de Granada. E, foi assim um contrato entre mim e o meu avô, ele convencia os meus pais e eu fazia-lhe o vinho e o azeite. O meu avô morre quando já estou na universidade de Lovaina, na Bélgica, e no seu testamento deixou-me esta parte do Domínio para que pudesse concretizar o meu sonho.
Depois de ter estudado na Bélgica e nos EUA regressou a Espanha… Em que consistiu exactamente o processo de modernização da viticultura espanhola do qual foi pioneiro?
De facto, na viticultura nada tinha mudado desde a época romana, ou praticamente nada, apenas se passou a usar os tractores para cultivar as vinhas, mas estas eram tratadas de forma tradicional, baixa, a mesma que existia em La Mancha muito antes dos romanos. Há uma conferência que costumo dar, e à qual já assistiu em Ávila o número dois do Banco Espírito Santo, José Maria Ricciardi, que se chama “O vinho sete mil anos de História, cultura, prazer e saúde” onde eu demonstrei que desde o tempo do meu avô muito pouco tinha mudado.
Qual foi a reacção aqui em Espanha?
O primeiro vinho que fiz foi sob a direcção de Emile Peynaud, conhecido como o pai da nova enologia em Bordéus, um homem mítico. Ele esteve presente no ano de 1982 e confirmou-me que eu podia seguir com o meu projecto e colocar o seu nome nos rótulos pois era um vinho magnífico. A partir dessa altura o vinho era mais fácil de vender em Inglaterra do que em Espanha. Aumentámos as exportações!
Encontramos um paralelismo entre o seu trajecto e o de Piero Antinori...
Sim, de facto. É também um grande amigo.
São duas pessoas que têm um passado mais ou menos, não digo comum, mas muito semelhante…
Sim, mas a adega dele é muito mais importante do que a minha…
Qual é para si a mais-valia que, tanto no seu caso como no de Antinori, trouxeram de novo. Ambos vêm de famílias tradicionais mas acabam por ser importantes renovadores.
De facto, assim é. Creio que as nossas regiões são muito semelhantes. Vindos da Toscânia, os vinhos de Chianti que se bebiam na universidade belga onde estudei, eram uns vinhos novos, com pouco ou nenhum estágio, e eram vinhos bastante maus. Mas tinham para nós, estudantes, um preço atractivo. Com Piero tudo mudou. Para isso contou com Emile Peynoud, para quem não fazia sentido acrescentar no vinho tinto clássico de Chianti uvas brancas, como era ordem do então conselho regulador. Sugeriu a troca por uvas de uma vinha riquíssima perto de Florença, acrescentando um pouco da casta Cabernet Sauvignon. Assim nasceu Tignanello. O escândalo foi tal que o vinho foi declarado vinho de mesa, facto contraposto pelos críticos americanos, ingleses e alemães que afirmaram nunca ter provado um vinho da Toscânia tão bom. Antinori ele próprio membro do conselho regulador, viu-se obrigado a deixá-lo, regressando algum tempo depois.
Curiosamente em sua casa a nova geração é praticamente um terreno ocupado por mulheres.
É verdade. Chamam-se Alejandra, Tamara y Aldara e o meu último vinho tem o nome de AAA.
Mas é Xandra quem dá a cara…
Xandra é a directora de marketing e de vendas, tendo a seu cargo a distribuição por 43 países.
De acordo com a legislação espanhola, o “Viño de Pago” é originário de um pago, entendendo-se por tal um lugar ou sítio rural com características próprias de solo e de microclima que o diferenciam de outros em seu redor. O que distingue o Domínio de Valdepusa fazendo dele o líder no mercado?
Bem, o que nós pretendemos desde o primeiro momento é seguir de perto o modelo que os franceses chamam de “Cru”. Já um “Gran Cru” é um “Cru” premiado. E isso é um “château” ou um “domaine”, que é uma “finca” onde somente se plantam uvas próprias tratadas numa adega, normalmente, situada na própria “finca”. Em alguns casos, como o do meu amigo Aubert de Villaine, a quem vamos entregar o próximo prémio dos Grands Crus espanhóis, as “fincas” são tão pequenas que a adega está instalada na aldeia vizinha. E como a “finca” está numa ladeira não se pode construir…
Zonas demasiado valiosas.
Efectivamente, no domínio Romanée-Conti, as vinhas têm um hectare, nem sequer chegam aos dois hectares.
Qual é a área de Valdepusa?
50 hectares. É um domínio bom. Em Bordéus há “chateaux” com 50 ou 60 hectares, como, por exemplo, Margot.
Podemos afirmar que o Domínio de Valdepusa é o projecto da sua vida?
Efectivamente, o vinho atrai-me desde os meus 15 anos, o meu pai era um homem da arte, visitámos todos os grandes museus europeus e todas as cidades monumentais. Num dos almoços numas dessas muitas cidades que visitávamos disse-lhe, com algum humor, que não tinha escolhido o vinho certo para ao prato que tínhamos seleccionado. Como resposta pediu-me para ser a escolher, o que fiz. Escolhi um Saint Emilion, um Merlot, que acompanhou muito bem a refeição. A partir desse dia fui nomeado pelo meu pai para passar a escolher sempre o vinho. Eu tinha 15 anos e já apreciava o vinho. Efectivamente eu creio que sim que é o projecto da minha vida. Ao fim ao cabo é uma “finca” que tem muitas raízes nossas e o mais gratificante é o termos dado valor a uma herança centenária e ao mesmo tempo termos feito avançar a viticultura e a enologia mais moderna, ou seja, entrámos perfeitamente no século XXI ao mesmo tempo que soubemos guardar o melhor da tradição, algo que verdadeiramente me agrada. Soubemos conservar a paisagem, ao mesmo tempo que a melhorámos, e, no final, conseguimos concretizar o que acho que era esperado de nós. Quando a imprensa me questiona sobre o significado de possuirmos um título nobiliário, eu respondo que hoje em dia não nos dá nenhum privilégio, bem pelo contrário, acaba por ser um inconveniente quando vamos pedir algo aos órgãos administrativos. Mas, em troca das dificuldades recebemos algo que procuramos melhorar, dar-lhe um pouco mais de brilho e passar à geração seguinte.
Que vinhos destaca?
Na nossa casa tentamos sempre fazer coisas novas, inovando, opção que se reflecte nos vinhos que lançamos, como é o caso do Caliza, criado em Novembro do ano passado. Imaginámos este vinho a pedido dos nossos sócios da Moët Hennessy que com ele pretendem chegar a uma classe média, uma vez que quase todos os nossos vinhos são bastante caros, por exemplo El Summa custa entre 30 e 35 dólares, era um pouco dispendioso, eles queriam ter um vinho na casa dos 20 dólares. Daí surgiu a ideia de criar Caliza, actualmente já comercializado em Espanha e em outros países europeus onde se tem revelado um êxito fenomenal de vendas. A grande novidade deste vinho é o facto de se basear numa mistura entre Syrah e Petit Verdor. O outro vinho recentemente concebido é o AAA. Este representa para nós, uma aposta de grande importância, sendo que foram engarrafadas apenas 3 mil garrafas! Temos também uma reserva de 400 magnum as quais, todavia, ainda não colocámos no mercado.
Fale-nos um pouco dos Grandes Pagos de España, dos quais fazem parte produtores de prestígio, como Mariano Garcia, o qual se destaca pelo seu trajecto, e Vítor de La Serna.
Mariano García foi a primeira pessoa com quem falei sobre o tema dos Grandes Pagos. Tenho por ele uma grande amizade e admiração. É uma figura internacionalmente respeitada e admirada. Em Espanha porque foi o enólogo durante 30 anos de Vega Sicilia, mas logo fez um acordo com Mauro, com San Román e agora com Aalto, realmente extraordinário. Mariano foi importantíssimo na constituição do que primeiro se chamou Grandes Pagos de Castilla.
É um pilar… E Víctor de La Sena?
Outro importante pilar. Actualmente está a realizar vinhos com Touriga Nacional, facto do qual sente muito orgulho. Sempre foi um grande defensor da Touriga Nacional, a qual considera La Pinot Noire da Península Ibérica.
Os Grandes Pagos são uma organização fechada?
Não, somos uma organização aberta, mas aberta com prudência, porque as exigências que pedimos em Espanha são mais difíceis de encontrar do que em França ou em Itália. A primeira é que seja um autêntico Pago, o que significa que a uva com o qual é feito seja oriunda de uma “finca.
E que outras condições são necessárias para integrar os Grandes Pagos?
Além da acima referida, de ser um Pago autêntico, outra condição fundamental é que pelo menos durante 5 anos tenha sido exportado, ou seja, que não tenha sido vendido apenas em Espanha. Devemos encontrá-lo em restaurantes internacionais de prestígio e já deverá ter sido alvo de boas críticas por parte de especialistas e de someliers internacionais.
Qual foi o último vinho a ter acesso aos Grandes Pagos?
Foi um vinho da Ribera del Duero, vizinha de La Seca, da adega Alonso del Hierro que tem um enólogo biodinâmico fantástico chamado Derenoncourt que já fez alguns vinhos para a região de Bordéus. Além do vinho Alonso del Hierro fazem outro que se chama Maria.
Nos Grandes Pagos só têm um vinho galego. Porquê?
Pois, efectivamente até podia haver mais. Há pouco tempo travámos conhecimento com um Alvarinho realmente extraordinário que se chama Fillaboa, é oriundo de uma “finca” vizinha de Portugal, fica a 1 km de distância da região minhota e, coisa rara para um Pago galego, tem cerca de 70 hectares de vinha. É um vinho magnífico.
Sabemos que outra das suas paixões é a gastronomia. Como nasceu a ideia de criar o Azeite Extra Virgem Marques de Griñon?
Sobretudo porque prometi ao meu avô criar um azeite. Para ele o vinho era algo secundário, era o azeite que realmente importava. Os montes da região de Toledo são, na realidade, mais de olivais do que de vinhas. O que acontece é que agradava-me mais o vinho e naquela altura parecia-me mais fácil ter um vinho de Pago do que um azeite. Por isso investimos primeiro no vinho, o que acontece é que o projecto de criação do vinho durou muito mais tempo do que aquele que tinhamos planeado. Mas, a ideia de criação de um azeite nunca me abandonou, fez sempre parte dos nossos planos. Sempre. De tal forma, que há muitos anos visitei a Toscânia para ver como faziam o azeite, um Pago de Chianti clássico, que me deixou rendido. Para a comercialização do azeite criámos outra organização, os Grandes Pagos de Olivar cujo presidente é Alfredo Barral. Somos apenas seis os produtores que a integram.
Hoje com a imagem de produto gourmet, o azeite é, na realidade, uma aposta forte …
Muito forte mesmo. Juntamente com o vinho, é uma peça chave na dieta mediterrânica que nos agrada muito defender. Actualmente, exerço o cargo de vice-presidente da Real Academia de Gastronomia, declarada Real pelo Rei desde Dezembro último, facto que nos enche de alegria, pois dá-nos um enorme prestígio.
Podemos afirmar que existe uma Cultura do vinho?
Sim, claro que sim. Na minha perspectiva é milenar, tendo feito parte da cultura, primeiro do Médio Oriente e depois do Mediterrâneo. Hoje identifica a cultura ocidental.
De que forma analisa o crescimento do enoturismo de topo? Na sua óptica devia haver mais incentivos com vista ao fortalecimento desta área?
O tema do turismo é hoje em dia crucial na economia e no desenvolvimento dos países. Em Espanha todos os governos regionais estão sensibilizados para esse facto, pois consideram que um enoturismo de qualidade é uma forma de cativar um turismo de topo também para as regiões mais interiores. O grande problema é que aqui quase todo o turismo assenta em praia e mar. Mas esta realidade está a sofrer alterações, já existe um turismo mais diversificado, com o golfe, o turismo cultural, religioso, etc. A nossa meta neste assunto é efectivamente incentivar o enoturismo, sendo que para isso já temos alguns projectos, como a adega que estamos neste momento a recuperar em Rincón, a 50 km de Madrid. Para além deste temos outros projectos. Em Castilla La Mancha surgiu uma associação dedicada ao enoturismo, com cerca de 20 adegas. A ideia é que os visitantes se sintam atraídos pelas vertentes cultural e histórica, combinando-as com a visita aos locais de onde surge um dos mais importantes produtos da região, não podemos esquecer que Castilla La Mancha produz metade de todo o vinho produzido em Espanha. A intenção é chamar a atenção para um turismo elitista, que, além de outros assuntos, se interesse pela viticultura, que sinta paixão em ver as vinhas, as gentes que as trabalham e em provar o produto final. Para casos especiais, como seja a visita de directores de grandes grupos económicos, temos, inclusive, a intenção de trazer à região renomados chefs espanhóis.
Sabemos que gosta de escrever…
Sim, é verdade. Escrevi um livro sobre o vinho, cuja edição espanhola já vai na sua 11.ª edição. A ideia era fazer um livro para fomentar a cultura do vinho entre aqueles que dizem nada entender sobre este assunto.
Como decorreu todo o processo de escrita?
Se a primeira intenção era chegar apenas aos curiosos que queriam conhecer algo mais sobre este tema, a verdade é que tive a agradável surpresa de ter muitos someliers interessados em receber o livro e, inclusive, divulgá-lo nos seus restaurantes. É um livro para os amantes do vinho mas que também interessa e revela muita utilidade para os profissionais. Um dos capítulos que mais cativa os leitores é o primeiro, onde falo sobre a história do vinho, a qual anda ao lado da história da civilização ocidental. O que acontece é que não tenho muito tempo, entre as minhas inúmeras viagens, da minha mulher que se dedica a ajudar o Terceiro Mundo, sobra pouco tempo para me dedicar à escrita. Para já estou a terminar um livro sobre a história do azeite que me está a dar muitíssimo trabalho, chama-se Olium, que significa azeite em latim. Como agente editorial tenho a sorte de ter Carmen Balcells, agente de Gabriel Garcia Marquez, Isabel Allende e Mario Vargas Llosa.
Qual a sua maior lição de vida?
É preciso sonhar, e depois é preciso trabalhar muitíssimo para concretizar os nossos sonhos. Temos que ser persistentes…